O NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO VAI “PEGAR”?

Artigo escrito por José Paulo Moreira de Oliveira

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José Paulo Moreira de Oliveira
Consultor Sênior do Instituto MVC
Autor dos livros "Como Escrever Melhor" e "Como Escrever Textos Técnicos"

Enquanto o sapato português já foi çapato, a pharmácia levou séculos para se modernizar – e perder o ph. Sòmente, sêde e tôda foram mais duradouros: resistiram heroicamente até 1971.

Nossos irmãos lusitanos agora vão ter de habituar-se a largar de mão o h de húmido (será que vão?), não poderão mais activar o alarme; tampouco cometer infracções. Pela nova ortografia, será considerado policticamente incorrecto ir de férias ao Egipto ou encarar a vida com optimismo.

Aqui do lado de baixo do Equador também teremos nossa cota (ou quota) de sacrifícios: degustaremos linguiças sem trema e nossos sequestros nunca mais serão os mesmos. Será que vamos aguentar?

Menos mal que os portugueses continuarão a escrever facto e indemnizar, tão distantes dos nossos fato e indenizar. Tudo bem que eles continuem falando fémur, pónei, pénis e ónus. O que fazer se eles gostam das vogais abertas, enquanto nós preferimos as fechadas?

O fato é que muitos não creem no acordo e o repudiam; outros veem na reforma o aumento saudável do intercâmbio entre os povos de língua portuguesa, que poderá alçar voos mais altos.

Por ora, a questão é polémica – ou polêmica. O futuro é que vai decidir quem está com a razão. E se a ideia deste acordo valeu a pena.

MUDANÇAS NO ALFABETO

O alfabeto terá 26 letras. As letras k, w e y, que nunca saíram totalmente de moda, voltam agora com toda a força.

Essas letras costumam aparecer:

  1. na escrita de símbolos de unidades de medida:
    K, km, kg, kw

  2. na escrita de palavras e nomes estrangeiros
    show, playboy, playground, windsurf, waffle, whisky, kung fu, yin, yang, yen, William, Kaiser, Kafka e layout

Acabou o trema!

O mundo nunca mais será o mesmo! Pingüim, freqüência e qüinqüênio são algumas das palavras que perderão o velho charme.

E as consoantes mudinhas? Foram-se embora!

Desaparecem as letras C, P e M nas sequências cc, cç, ct, pç, pt,mn,bd e bt

accionista, acção, factura, excepção, baptizar, omnipresente, súbdito, subtileza

Se a consoante for pronunciada, permanece a grafia de sempre (fricção, eucalipto, bactéria).

ACENTUAÇÃO GRÁFICA

As mudanças

  1. Caiu o acento dos ditongos abertos éi e ói das palavras paroxítonas

apóio

colméia

celulóide

idéia

heróico

estréia

jibóia

geléia

jóia

platéia

  1. Caiu o acento no i e no u tônicos quando vierem após ditongo:
    feiura, baiuca,maoismo

  2. Caiu o acento das palavras terminadas em êem e ôo:
    creem, leem, veem, enjoo, voo,abençoo

  3. Caíram os acentos diferenciais de:
    pára/para, pêlo(s)/pelo(s), pólo(s)/polo(s) e pêra/pera.

  4. Continuam os acentos diferenciais de pôr, pôde e os acentos que diferenciam singular e plural dos verbos ter e vir (e compostos).

  5. Caiu o acento do verbo argüir:
    arguo, arguímos, arguem

  6. Verbos do tipo averiguar, desaguar, enxaguar, delinquir e afins têm dupla pronúncia: podem ou não receber acento:
    averíguo/averiguo, enxáguas/enxaguas, delínquo/delinquo

    HÍFEN

    Tracinho ainda trapalhão?

    Embora o número de regras tenha diminuído, ainda não chegamos à racionalização pretendida pelos usuários. De qualquer forma, houve avanços.

    Vamos às regras?

    1. Palavras compostas
      Hífen quando o primeiro elemento é substantivo ou adjetivo, verbo, advérbio ou numeral.

Substantivo ou adjetivo

Verbo

Advérbio ou numeral

cirurgião-dentista

arranha-céu

segunda-feira

mesa-redonda

porta-retrato

primeiro-ministro

guarda-civil

beija-flor

sempre-viva

sócio-econômico

conta-gotas

bem-humorado

recém-criado

guarda-chuva

mal-estar

  • Compostos que designam espécies botânicas não receberão mais hífen, quando empregados em sentido figurado.

    Veio falar comigo cheio de não me toques.
    A crise financeira parece uma verdadeira bola de neve.

“Apesar de o Acordo não mencionar expressões com valor de substantivo, do tipo deus nos acuda, bumba meu boi e tomara que caia, tais unidades fraseológicas devem ser grafadas sem hífen. Da mesma forma, serão usadas sem hífen locuções como à toa, dia a dia e ponto e vírgula”

Evanildo Bechara in “O que muda com o Novo Acordo Ortográfico”

  1. Hífen com prefixos

    Deve-se usar o hífen

  • Quando o segundo elemento começa com h
    anti-higiênico, pré-história, super-homem

  • Quando o segundo elemento começa pela mesma vogal.
    anti-inflamatório, arqui-inimigo, contra-atacar

  • Com os prefixos ex, pós, pré, pró, sem e vice.
    ex-diretor, pós-graduação, pré-vestibular, pró-ativo, sem-terra, vice-presidente,

  • Quando o segundo elemento começa pela mesma consoante final do prefixo. inter-regional, hiper-requintado, super-resistente

  • Com os prefixos circum e pan, diante de palavra iniciada por m, n e vogal. circum-navegação, pan-americano

  • Quando o primeiro elemento termina por b ou d e o segundo elemento termina por r. ad-referendo, sub-reitor, ab-rupto (ou abrupto)

Não se deve usar o hífen

  1. Quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por r ou s.
    antirrábica, biorritmo, contrarregra, microssistema, semirreta,

  2. Quando o prefixo termina em vogal diferente da vogal com que se inicia o segundo elemento
    antiaéreo,coautor, contraofensiva, extraescolar, infraestrutura,

  3. Quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por consoante diferente de r ou s.
    autoproteção, coprodução, pseudoadvogado, semideus

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José Paulo Moreira de Oliveira
Consultor Sênior do Instituto MVC
Autor dos livros "Como Escrever Melhor" e "Como Escrever Textos Técnicos"

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